O fundador da Patagonia construiu uma das empresas mais admiradas do mundo tomando decisões que colocaram a responsabilidade ambiental no centro do negócio. Um caso de referência em responsabilidade ambiental corporativa, economia regenerativa e liderança orientada por valores.
Modelos de liderança costumam ser descritos em termos de performance, inovação ou escala. Fala-se menos sobre o custo das escolhas e sobre aquilo que um líder decide não fazer. Liderar com valores, na prática, significa aceitar perdas no curto prazo para sustentar convicções no longo prazo. A trajetória de Yvon Chouinard ilustra bem esse dilema.
Alpinista antes de empresário, Chouinard tornou-se um capitalista relutante. Fundador da Patagonia[1] , foi chamado pela Forbes de “o bilionário mais improvável da história corporativa”. Construiu uma empresa globalmente admirada questionando várias das regras tradicionais do jogo empresarial.
Nos anos 1960, quando ainda fabricava equipamentos de escalada, tomou uma decisão que diz muito sobre sua forma de liderar. Os pítons metálicos que produzia — seu item mais vendido — estavam danificando as paredes de granito de Yosemite. Com o crescimento do esporte, formações rochosas milenares começaram a se deteriorar. Chouinard decidiu parar de vendê-los. Abriu mão da principal fonte de receita para preservar a natureza e sua própria coerência. Essa decisão pioneira antecipa o que hoje chamamos de liderança consciente: escolher impacto ambiental em vez de crescimento a qualquer custo.
A decisão não ficou apenas no gesto inicial. Em 1972, a empresa publicou no catálogo um ensaio intitulado Clean Climbing, defendendo técnicas de escalada que evitassem danos às rochas. O episódio acabou estabelecendo um padrão para escolhas que viriam depois: aceitar perdas imediatas para preservar algo maior.
Essa lógica passou a orientar a evolução da Patagonia. A empresa adotou critérios que, à primeira vista, pareciam pouco compatíveis com crescimento acelerado: produtos duráveis, eliminação gradual de materiais tóxicos, cadeias produtivas mais responsáveis e uma preocupação crescente com o impacto ambiental. A sustentabilidade deixava de ser apenas uma característica de produto para se tornar parte da estratégia do negócio. A Patagonia consolidava, assim, um modelo de negócio sustentável que integrava cadeia produtiva responsável, consumo consciente e engajamento ambiental como pilares estratégicos.
No fim dos anos 1980, a empresa crescia cerca de 40% ao ano, impulsionada pela popularização das roupas para atividades ao ar livre. A expansão acelerada, somada à recessão do início dos anos 1990, levou a Patagonia a uma crise financeira profunda. Chouinard reagiu desacelerando o crescimento, reforçando o caixa e revendo prioridades. Em meio à turbulência, levou parte da liderança da empresa à região da Patagônia, entre Argentina e Chile, para discutir o futuro do negócio.
A reflexão levou a uma pergunta fundamental: a empresa existia apenas para vender roupas ou poderia assumir um papel mais amplo?

Nos anos seguintes, a resposta começou a aparecer nas decisões da marca. Vieram campanhas provocativas, como “Don’t Buy This Jacket”, que questionava o consumo excessivo; o programa Worn Wear, que incentiva reparo e revenda de peças usadas; e posicionamentos públicos firmes sobre questões ambientais e climáticas. Nem sempre confortáveis e muitas vezes longe de consensos.
Chouinard nunca eliminou completamente as contradições do modelo. Queria lucro e impacto ambiental positivo. Crescimento e limites. Funcionários felizes — mas em um ambiente de alto padrão de exigência. Incentivava as pessoas a consumirem menos, embora dependesse das vendas para manter o negócio. Talvez sua maior contribuição não tenha sido resolver esses paradoxos, mas aceitar que eles fazem parte do processo de liderar.
Em 2022, aos 83 anos, levou essa lógica a uma decisão incomum no mundo empresarial. Reorganizou a propriedade da empresa — avaliada em cerca de US$ 3 bilhões — transferindo seu controle para o Patagonia Purpose Trust e destinando os dividendos ao Holdfast Collective, organização criada para financiar iniciativas de combate à crise climática. Em vez de vender ou abrir capital, garantiu que os resultados do negócio continuassem apoiando causas ambientais. Essa doação corporativa sem precedentes tornou-se símbolo global de que propósito empresarial e combate à crise climática podem estruturar — e não apenas complementar — o modelo de negócio.
Hoje, a Patagonia resume seu propósito em uma frase direta: “estamos no negócio para salvar nosso planeta”.
Liderança orientada por valores não é sobre pureza. É sobre direção. Sobre fazer escolhas imperfeitas, repetidas vezes, na mesma direção ética. Num mundo corporativo que ainda mede sucesso prioritariamente por margens e múltiplos, a trajetória de Chouinard sugere que outras métricas também são possíveis.
A pergunta permanece aberta — e incômoda para líderes empresariais: se sabemos o que importa, o que estamos dispostos a sustentar quando isso custa? A Patagonia mostra que ESG, economia regenerativa e responsabilidade socioambiental não são tendências passageiras — são a base de uma liderança que atravessa décadas.

Shareholder mãe
“A Terra é agora nossa única acionista.” (Frase dita ao anunciar a doação de sua empresa para o combate à crise climática)
Ivon Chouinard, fundador da Patagônia.
Responsável: Naná Prado





