Quem define o que é sustentável e quem ganha com isso no comércio global

Em um cenário de tensões geopolíticas e novas exigências de mercado, a reportagem articula a leitura de Victor Luiz do Prado*, especialista em comércio internacional e ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), com uma análise dos movimentos que devem redefinir a competitividade global nos próximos anos. Uma análise sobre sustentabilidade no comércio global, justiça climática, rastreabilidade e a disputa geopolítica por quem define as regras do jogo.

A competitividade no comércio global tem sido cada vez mais determinada pela capacidade de adaptação a novas exigências — regulatórias, tecnológicas e ambientais.

Estamos em um cenário marcado por tensões geopolíticas, avanço da inteligência artificial e crescente pressão por rastreabilidade. Nesse contexto, a sustentabilidade deixa de ser apenas um diferencial e passa, cada vez mais, a estruturar o acesso a mercados — ainda que de forma desigual entre regiões e setores. Rastreabilidade, descarbonização da cadeia produtiva e conformidade com regulações ambientais internacionais tornaram-se requisitos para competir no comércio global.

Mas há um ponto central nesse movimento — e nem sempre evidente: o que é considerado “sustentável” no comércio global não é uma definição técnica ou neutra. É uma construção política, moldada por governos, pressionada pela sociedade civil e atravessada por interesses econômicos e estratégicos.

O resultado é um campo em disputa, no qual diferentes países — com prioridades, capacidades e responsabilidades distintas — tentam influenciar as regras do jogo.

Poucos profissionais acompanharam essa transformação tão de perto quanto Victor Luiz do Prado. Diplomata de carreira, com atuação nas negociações do Mercosul e na criação da Organização Mundial do Comércio, ele construiu sua trajetória no centro das decisões que moldaram as regras do comércio internacional nas últimas décadas.

Foi nesse contexto, entre a consolidação do sistema multilateral e o avanço da agenda ambiental, especialmente a partir da Rio-92, que a relação entre comércio e sustentabilidade começou a ganhar forma concreta na sua leitura.

Ao longo da conversa, Victor ajuda a entender como essa agenda deixou de ser periférica para se tornar parte estrutural das dinâmicas globais — ainda que hoje conviva com prioridades, como segurança econômica, tecnologia e competição geopolítica.

Hoje, como conselheiro consultivo internacional do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), ele acompanha de perto essa inflexão e reforça que, mesmo quando perde espaço na agenda imediata, a sustentabilidade não desaparece: permanece e tende a seguir relevante no longo prazo.

Naná Prado: Como você enxerga hoje o papel da sustentabilidade e do ESG no comércio global? Que lugar eles ocupam nas dinâmicas de competitividade e acesso a mercado?

Victor Luiz do Prado: A agenda de sustentabilidade e ESG continua sendo importante no comércio global, mas houve mudanças relevantes, tanto no foco quanto na sua distribuição geográfica.

Do ponto de vista do foco, especialmente a partir do governo Trump, e ainda mais recentemente, temas como defesa, segurança econômica, conflitos e resiliência das cadeias de suprimento ganharam centralidade. Basta observar o noticiário: guerra, tensões geopolíticas e segurança passaram a ocupar mais espaço do que temas como clima e ESG.

Isso não significa que a sustentabilidade tenha sido abandonada, mas sim que perdeu protagonismo relativo na agenda internacional em comparação com seis ou sete anos atrás.

Ao mesmo tempo, há uma clara variação geográfica nessa agenda.

Ela começou com mais força nos países desenvolvidos, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Hoje, nos Estados Unidos, essas questões perderam prioridade e passaram a um plano secundário ou até terciário. Já na Europa, continuam centrais — não apenas no campo ambiental e climático, mas também nas dimensões social e de governança.

A grande novidade, no entanto, é o papel da China. A abordagem chinesa à sustentabilidade é fortemente influenciada por interesses econômicos e estratégicos. Por exemplo, a dependência do país em relação ao  petróleo levou a um esforço consistente de transição, combinado com um forte investimento em novas tecnologias.

O resultado é que, em cerca de uma década, a China passou a produzir a maior parte dos painéis solares do mundo, além de avançar significativamente em baterias e veículos elétricos. A transição energética tornou-se, assim, uma estratégia industrial — e não apenas ambiental — com impacto direto na competitividade e nas cadeias de suprimento globais.

Ou seja, trata-se de uma agenda ambiental, mas profundamente integrada à estratégia industrial e comercial do país. A China demonstra que a produção de bens ligados à sustentabilidade pode ser altamente lucrativa.

Esse contraste fica ainda mais evidente quando lembramos debates europeus do início dos anos 2000, como na Alemanha, onde se discutia como tornar a agenda ambiental economicamente viável — muitas vezes com forte intervenção do Estado para viabilizar tecnologias como a energia eólica.

No caso chinês, em que o Estado está profundamente integrado à estrutura produtiva, essa articulação entre política pública e desenvolvimento industrial ocorreu de forma mais direta e acelerada.

Em síntese, vemos hoje um cenário em que a sustentabilidade continua relevante, mas com diferentes níveis de prioridade e abordagens: menor centralidade nos Estados Unidos, forte presença na Europa e um protagonismo crescente da China, sobretudo sob uma lógica econômica e industrial.

Naná Prado: Na sua leitura, como se deu essa transição — de uma agenda mais periférica para algo que hoje parece estruturar as regras do comércio internacional? Onde isso aparece de forma mais concreta nas dinâmicas atuais — seja em barreiras não tarifárias, exigências de rastreabilidade ou outros mecanismos?

Victor Luiz do Prado: Quando olho para essa transição, o principal motor me parece ter sido a sociedade civil, especialmente a mobilização de organizações não governamentais.

Essa agenda, que começa de forma mais espontânea na sociedade, acaba sendo incorporada por partidos políticos. Um exemplo claro é o Partido Verde na Alemanha, que se consolidou como uma força eleitoral relevante. Movimentos semelhantes também ganharam espaço em outros países europeus, como Áustria, Suíça, França, Portugal e Reino Unido.

Ou seja, a pressão da sociedade civil foi fundamental para levar a agenda ambiental ao centro do debate político.

A partir daí, surge uma pergunta importante: por que a sociedade civil passou a se mobilizar em torno desses temas?

Uma possível explicação é que essa agenda se desenvolve primeiro em países desenvolvidos, a partir dos anos 1970, com marcos como a Conferência de Estocolmo, em 1972. Em contextos em que necessidades básicas — como moradia, educação e estabilidade econômica — já estavam mais atendidas, abre-se espaço para preocupações com o meio ambiente.

Eventos marcantes também contribuíram para essa conscientização, como acidentes nucleares — Three Mile Island e Chernobyl — que intensificaram o debate público e se conectaram com o movimento ambiental.

No Brasil, essa agenda ganha força inicialmente a partir de preocupações com desmatamento e preservação da fauna e da flora. Movimentos como a SOS Mata Atlântica foram importantes nesse processo.

Num primeiro momento, essa mobilização esteve mais concentrada em setores da sociedade com maior acesso a recursos e informação. Com o tempo, no entanto, ela se ampliou e passou a incorporar também dimensões sociais, como no caso dos movimentos ligados à Amazônia, às populações extrativistas e à figura de Chico Mendes.

Ou seja, trata-se de uma agenda que começa mais concentrada e, ao longo do tempo, se difunde pela sociedade, ganhando densidade política e social.

Naná Prado: Como você avalia o papel dos Estados Unidos na incorporação da sustentabilidade ao comércio internacional? Em que medida suas políticas refletem uma lógica de cooperação global ou de competição estratégica — e como isso impacta as regras do jogo?

Victor Luiz do Prado: No momento atual, os Estados Unidos estão fortemente orientados por uma lógica de competitividade — especialmente em relação à China.

Há algum tempo, o país parece ter feito uma escolha estratégica: manter sua competitividade com base em energia fóssil, sobretudo petróleo, em vez de priorizar uma mudança mais acelerada na matriz energética. Essa decisão está ligada à percepção de que esse modelo pode oferecer vantagens na disputa com a China.

Ao mesmo tempo, a China avança rapidamente em tecnologias ligadas à transição energética, como baterias, veículos elétricos e outras soluções de energia limpa —, o que amplia essa assimetria.

Nesse contexto, os Estados Unidos, especialmente sob o governo Trump, parecem ter deixado a agenda de sustentabilidade em segundo plano, priorizando a competição econômica e geopolítica. Há uma preocupação clara com a perda de posição hegemônica diante do avanço chinês.

Do meu ponto de vista, essa estratégia pode ser questionada. A economia americana é tradicionalmente mais competitiva no setor de serviços — como tecnologia, finanças e telecomunicações — do que na produção industrial ou em commodities energéticas.

É verdade que o país segue investindo fortemente em áreas como inteligência artificial, que fazem parte dessa vocação em serviços. No entanto, esse avanço traz um novo desafio: o enorme consumo de energia associado a essas tecnologias, o que recoloca a questão da matriz energética no centro da discussão.

Ou seja, mesmo quando se desloca para áreas mais avançadas da economia, a questão energética e, portanto, ambiental, permanece estrutural.

Além disso, há um componente social relevante. Em contextos onde questões básicas, como acesso à saúde, renda e segurança econômica, se tornam mais urgentes, a prioridade dada a temas ambientais tende a diminuir.

Isso ajuda a explicar por que, em determinados segmentos da sociedade americana, a agenda ambiental perdeu centralidade, embora continue presente em regiões como a Califórnia e o nordeste do país.

Por fim, há também um fator político e comunicacional. A dinâmica da agenda pública, marcada por ciclos rápidos de notícias e forte polarização, dificulta que temas como sustentabilidade se mantenham no centro do debate por longos períodos.

Naná Prado: Quando olhamos para Europa, China, América do Sul e Estados Unidos, como você enxerga a atuação de cada um na construção desses padrões de sustentabilidade no comércio? Que tipo de liderança — regulatória, econômica ou tecnológica — cada um exerce hoje?

Victor Luiz do Prado: Se deixarmos os Estados Unidos um pouco de lado, até porque houve uma tentativa de avanço durante o governo Biden que não se sustentou, Europa e China representam dois modelos bastante distintos.

Na Europa, há claramente uma liderança regulatória. Existe um conjunto robusto de normas ambientais, como os mecanismos de ajuste de carbono na fronteira (CBAM) e as regras relacionadas a desmatamento. Ao mesmo tempo, muitas vezes surge a percepção de que essas medidas não são apenas ambientais, mas também têm um componente de proteção de mercado.

O debate em torno do acordo Mercosul-União Europeia ilustra bem isso. Em alguns casos, preocupações com competitividade são apresentadas sob a forma de exigências ambientais. Até que ponto essas preocupações são genuínas ou estratégicas é uma questão em aberto.

De todo modo, é inegável que a agenda ambiental tem grande peso político na Europa. O Parlamento Europeu, por exemplo, atribui alta prioridade a esses temas. Isso faz com que a regulação ambiental europeia seja não apenas relevante, mas, em alguns casos, bastante abrangente, talvez até excessiva, especialmente quando não considera as diferenças de contexto entre países, como clima e condições produtivas.

Já a China segue uma lógica distinta. O país não busca exportar um modelo regulatório. Sua atuação está muito mais orientada por interesses econômicos, comerciais e tecnológicos.

A estratégia chinesa está centrada na produção e exportação de bens ligados à transição energética, como painéis solares, baterias e veículos elétricos. Ou seja, trata-se de uma agenda de sustentabilidade, mas profundamente integrada à política industrial e à competitividade internacional.

Na América do Sul, o Brasil se destaca como principal ator. A agenda ambiental continua presente no debate interno, com participação ativa de lideranças políticas e econômicas.

Ao mesmo tempo, há uma pressão externa importante. O Brasil busca demonstrar que sua produção agrícola — como carne, soja, açúcar e etanol — não é prejudicial ao meio ambiente, justamente porque sabe que isso é condição para manter o acesso a mercados, especialmente o europeu.

Ou seja, no caso brasileiro, a sustentabilidade aparece tanto como uma agenda doméstica quanto como uma exigência externa. Os dois elementos estão profundamente interligados.

Naná Prado: Até que ponto os critérios de sustentabilidade aplicados ao comércio global incorporam o princípio da justiça climática, especialmente quando pensamos nas diferenças históricas de emissão e nas capacidades dos países?

Victor Luiz do Prado: Essa é uma questão central e ainda não resolvida nas discussões internacionais sobre clima.

Embora não seja a minha área de especialidade, o que se observa nos debates, especialmente nas conferências do clima, é uma tensão permanente em torno do princípio da responsabilidade histórica.

De um lado, há o reconhecimento de que países desenvolvidos, como os europeus e os Estados Unidos, tiveram um papel predominante nas emissões ao longo do processo de industrialização. Esse reconhecimento, em geral, existe, ao menos no plano retórico.

Por outro lado, quando essa responsabilidade implica custos concretos — como financiamento, transferência de recursos ou compromissos mais exigentes —, esse consenso tende a se enfraquecer.

Ao mesmo tempo, há o debate sobre o que é razoável exigir de países em desenvolvimento, que passaram por processos de industrialização mais tardios e que, em muitos casos, ainda concentram ativos ambientais importantes, como florestas e biodiversidade.

Essa combinação torna a discussão particularmente complexa: trata-se de equilibrar responsabilidades históricas, capacidades atuais e diferentes estágios de desenvolvimento.

Por isso, esse é um tema recorrente nas conferências do clima e que permanece em aberto. A cada nova rodada de negociações, ele volta ao centro do debate, sem uma solução definitiva.

Há, evidentemente, mecanismos em discussão — como financiamento climático e transferência de recursos para países com maior cobertura florestal —, mas o desenho e a efetividade desses instrumentos ainda são objeto de negociação.

Naná Prado: Quem define o que é “sustentável” no comércio global e com quais interesses?

Victor Luiz do Prado: Essa é uma pergunta fundamental. Em grande medida, essa definição começa na sociedade civil, que pressiona e molda o debate. A partir daí, os governos incorporam essas demandas e as traduzem em políticas públicas e regulação.

Cada país, no entanto, tem sua própria visão sobre o que deve ser considerado sustentabilidade — tanto em termos de prioridades quanto de instrumentos. Isso se reflete na legislação adotada, que pode variar bastante e, em alguns casos, ser percebida como discriminatória ou injusta, especialmente por países com desafios sociais mais complexos.

No plano internacional, essas diferentes visões se encontram. Cada governo leva sua posição para as negociações, e o que emerge é uma construção coletiva — um processo multilateral, marcado por negociação e acomodação de interesses.

Hoje, essa dinâmica se torna ainda mais complexa. De um lado, há países que dão menor prioridade à agenda, como os Estados Unidos em determinados momentos. De outro, há preocupações com competitividade, especialmente em relação à China. A Europa ocupa uma posição intermediária, com forte ênfase regulatória. Já países como o Brasil, que concentram ativos ambientais relevantes, buscam conciliar preservação com a necessidade de obter compensações e manter sua competitividade.

O resultado é que a definição do que é “sustentável” no comércio global não é fixa nem neutra, ela é fruto desse equilíbrio entre diferentes interesses, capacidades e estratégias nacionais. Compreender essa dinâmica é essencial para empresas e países que buscam navegar as novas exigências de mercado — de regulações de carbono a normas de due diligence socioambiental.

Além disso, há uma limitação importante: muitos dos acordos internacionais nessa área não contam com mecanismos efetivos de sanção. Isso reduz a capacidade de aplicação e torna a implementação dos compromissos mais dependente de vontade política do que de obrigações vinculantes.

Em síntese, trata-se de uma construção necessariamente multilateral, mas também profundamente influenciada por assimetrias de poder e interesses entre países.


Naná Prado: Como o Brasil se posiciona hoje, no comércio global, diante de agendas como transição energética, descarbonização, bioeconomia e economia circular? Que fatores podem impulsionar, ou restringir, o protagonismo do país nesse contexto?

Victor Luiz do Prado: Pelo que acompanho, o Brasil continua ativo nessa agenda, e isso não é novo. Trata-se de um tema historicamente relevante para o país.

Em algum momento no passado, o Brasil adotou uma postura mais defensiva, quase de negação, no sentido de rejeitar responsabilidades. A Conferência do Rio, em 1992, marca uma inflexão importante. A partir dali, o país passa a entender que a melhor estratégia não é negar, mas se engajar e participar ativamente da construção dessa agenda.

Essa postura de engajamento se mantém até hoje. O Brasil busca não apenas participar das discussões, mas também influenciar o desenho das regras internacionais. Essa agenda se materializa, hoje, em frentes como a bioeconomia, a transição energética e a economia circular, nas quais o Brasil reúne ativos relevantes, mas também enfrenta desafios de execução e credibilidade. O fato de sediar grandes eventos, como conferências do clima, reflete esse posicionamento. O Brasil tem na bioeconomia amazônica, nos combustíveis renováveis e na agricultura de baixo carbono alguns dos seus ativos mais estratégicos para liderar a pauta de sustentabilidade no comércio internacional.

Ao mesmo tempo, existe uma preocupação constante com o uso da agenda ambiental como instrumento de proteção comercial — especialmente no caso europeu, com mecanismos como o ajuste de carbono na fronteira e outras exigências aplicadas a produtos como carne, aço e commodities agrícolas.

Por isso, o Brasil também procura demonstrar que sua produção — seja de carne, soja, açúcar ou etanol — não está associada a práticas ambientalmente nocivas. Essa preocupação é central, sobretudo para garantir acesso a mercados internacionais.

Internamente, essa agenda também é sustentada por diferentes forças. Há lideranças políticas e técnicas relevantes, como Marina Silva e Izabella Teixeira, além de uma dimensão social importante — que envolve, por exemplo, comunidades indígenas e a relação entre pobreza e meio ambiente.

Nesse sentido, temas como saneamento, educação e inclusão social também fazem parte da equação da sustentabilidade no Brasil.


Naná Prado: Olhando para o cenário atual de conflitos, especialmente no Oriente Médio, como você avalia os impactos dessas tensões sobre a agenda de energia e sustentabilidade? Há efeitos que podem acelerar mudanças estruturais?

Victor Luiz do Prado: Os conflitos têm múltiplas consequências, inclusive ambientais. Mas, do ponto de vista econômico e energético, a principal preocupação está no risco de interrupção do fornecimento, por exemplo, com o fechamento do Estreito de Ormuz.

Diante desse tipo de risco, países que ainda dependem fortemente de petróleo e gás tendem a buscar diversificar suas matrizes energéticas.

Curiosamente, isso pode ter um efeito positivo. A necessidade de reduzir dependências força uma reflexão sobre segurança energética, resiliência e alternativas de longo prazo.

Isso leva governos e empresas a reconsiderar suas estratégias e a olhar com mais atenção para fontes de energia mais limpas.

Não é a primeira vez que choques externos provocam esse tipo de movimento — a pandemia já havia trazido essa discussão sobre resiliência e segurança econômica para o centro da tomada de decisão.

Agora, com os conflitos, essa agenda se intensifica. Quando o acesso a fontes tradicionais de energia se torna incerto, a diversificação deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade.

Nesse contexto, países que avançaram em tecnologias ligadas à transição energética — como energia solar, eólica e armazenamento —, especialmente a China, tendem a se beneficiar dessas mudanças.

Naná Prado: Quando você projeta os próximos anos do comércio internacional, quais movimentos na agenda de sustentabilidade te parecem mais decisivos, aqueles que as empresas e países não podem ignorar?

Victor Luiz do Prado: Ao projetar os próximos anos, há alguns movimentos que empresas e países não podem ignorar.

Além da questão das matrizes energéticas, que já mencionamos, um ponto central é o papel crescente da inteligência artificial e das tecnologias avançadas.

Aqui, mais uma vez, aparece uma forte dinâmica de competição entre Estados Unidos e China. O mais recente plano quinquenal chinês, por exemplo, reforça o apoio à alta tecnologia e à inteligência artificial como eixo estratégico.

O que ainda está em aberto, e que me parece particularmente relevante, é como essas tecnologias podem ser aplicadas à agenda de sustentabilidade.

A inteligência artificial pode contribuir, por exemplo, para otimizar processos produtivos, reduzir emissões, melhorar a gestão de recursos e apoiar decisões mais eficientes em termos ambientais. Isso inclui desde métodos de produção menos poluentes até escolhas mais racionais sobre localização de atividades, logística e cadeias de suprimento. A convergência entre inteligência artificial, sustentabilidade e comércio internacional está redefinindo os critérios de competitividade global para a próxima década.

Em um contexto em que empresas lidam com múltiplas variáveis — econômicas, operacionais e ambientais —, a capacidade de integrar esses fatores de forma mais sofisticada tende a se tornar um diferencial competitivo.

Por isso, a sustentabilidade não pode mais ser vista de forma isolada. Ela está cada vez mais conectada ao que há de mais avançado em tecnologia.

Mais do que uma agenda setorial, passa a ser parte de uma transformação mais ampla na forma como se produz, se organiza e se compete no comércio global.

[BOX]

O que fica depois da conversa

Ouvir o Victor Luiz do Prado é, antes de tudo, um exercício de deslocamento de escala.

A sustentabilidade, que muitas vezes aparece no debate público como escolha individual ou posicionamento de marca, se revela ali como aquilo que de fato é: uma engrenagem do sistema internacional — moldada por interesses, disputas e assimetrias de poder.

No plano global, ela já não é um diferencial. É condição de acesso. Mas essa constatação convive com uma tensão menos visível — e talvez mais decisiva.

Porque, se nas negociações internacionais a sustentabilidade avança por meio de regulação, tecnologia e pressão política, no cotidiano das pessoas ela ainda precisa caber no orçamento.

Preço, percepção e valores seguem em disputa — e isso limita a velocidade com que essa agenda se traduz em prática.

Essa contradição ajuda a explicar por que a sustentabilidade pode, ao mesmo tempo, estruturar mercados e permanecer frágil como escolha de consumo.

O que emerge daí não é um único caminho, mas um conjunto de exigências que passam a definir a competitividade no comércio global.

Empresas e países precisarão, cada vez mais, navegar um ambiente em que:

  • regras ambientais se traduzem em barreiras concretas de acesso a mercados
  • cadeias produtivas exigem rastreabilidade e gestão integrada
  • tecnologia, especialmente inteligência artificial, deixa de ser suporte e passa a ser vetor de decisão
  • e a instabilidade geopolítica redefine continuamente custos, riscos e oportunidades

Mais do que responder a cada uma dessas dimensões isoladamente, o desafio será integrá-las.

E talvez seja esse o ponto mais estrutural da conversa: essa integração não é apenas técnica — é humana.

A capacidade de incorporar a sustentabilidade de forma consistente depende, no limite, de educação, de comunicação e de repertório. Depende de formar pessoas capazes de entender, traduzir e operar essa complexidade.

Sem isso, a sustentabilidade tende a permanecer onde já está em muitos casos: como exigência regulatória, como discurso corporativo, como narrativa de mercado.

Mas não ainda como decisão consciente, disseminada e sustentada ao longo do tempo.

* Victor Luiz do Prado construiu sua trajetória no centro das negociações que moldaram o comércio internacional contemporâneo. Diplomata de carreira, atuou no Ministério das Relações Exteriores e passou quase duas décadas na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde foi diretor da Divisão do Conselho e do Comitê de Negociações Comerciais, além de presidir o Comitê de Subsídios e participar de painéis no sistema de solução de controvérsias. Hoje, integra o Conselho Consultivo Internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e leciona Geoeconomia e Diplomacia na Sciences Po, em Paris.

No mercado global, em certa medida, a sustentabilidade perdeu centralidade em um mundo cada vez mais orientado por segurança e competição.

A justiça climática é um princípio reconhecido — mas ainda não plenamente operacionalizado. Esse debate tende a se refletir também no comércio internacional, na medida em que critérios ambientais e exigências de mercado nem sempre incorporam plenamente essas diferenças de responsabilidade e capacidade entre países.

O que é “sustentável” no comércio global não é uma definição técnica — é uma construção política.

Crises energéticas não freiam a transição — elas podem acelerá-la.

Responsável: Naná Prado

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