Sicoob: um sistema financeiro organizado a partir de quem participa dele

O ponto de partida deste Raio X foi entender como sustentar um modelo orientado por valores sem perder competitividade no setor financeiro. E quem ajuda a responder é o diretor executivo Ênio Meinen. Um modelo de finanças cooperativas que coloca o associado no centro — e questiona os padrões do sistema financeiro tradicional.

No cooperativismo, quem utiliza serviços financeiros também participa dos resultados e das decisões. A proposta é conhecida, mas nem sempre evidente na prática. Este Raio X parte dessa pergunta: onde essa lógica se sustenta – e onde ela é tensionada? É nesse contexto que atua o Sicoob, um dos maiores sistemas financeiros cooperativos do país.  A inclusão financeira e o cooperativismo financeiro são, aqui, mais do que princípios — são a engrenagem central do modelo.

Enquanto outras empresas do setor buscam escala, margem e padronização, o Sicoob opera em uma lógica menos comum: a de que uma instituição financeira pode existir não apenas para seus clientes, mas com eles. O que muda é a relação: do consumo para a corresponsabilidade.

No cooperativismo, a responsabilidade com as comunidades é bem comum. Ela está formalizada no princípio do “compromisso com a comunidade”, definido pela Aliança Cooperativa Internacional.

No Sicoob, esse princípio está na origem. “A preocupação com o entorno comunitário nasce simultaneamente com o surgimento do cooperativismo”, afirma Ênio Meinen, diretor executivo do Sicoob.

O que muda, segundo ele, é como essa lógica se estrutura. “Ao longo dos anos, fomos estruturando e potencializando iniciativas cada vez mais integradas.”

Esse movimento ganha escala a partir de 2018, com a criação do Instituto Sicoob. Em 2021, a sustentabilidade passa a ser incorporada de forma mais explícita ao negócio, com métricas, governança e relatórios alinhados à Global Reporting Initiative (GRI).

No Brasil, onde milhões ainda estão à margem do sistema financeiro, o modelo ganha relevância. Mas, à medida que cresce, também se aproxima das tensões do próprio setor.

É esse o ponto de partida: como sustentar um modelo orientado por valores sem perder competitividade no setor financeiro?

O diferencial econômico: onde o modelo se prova

Se o cooperativismo propõe uma lógica diferente para o sistema financeiro, é no campo econômico que essa promessa precisa se sustentar. No Sicoob, essa diferença aparece de forma mais concreta na relação com o cooperado – especialmente em três frentes: crédito, tarifas e distribuição de resultados.

Segundo o diretor executivo da instituição, o primeiro ponto está no acesso ao crédito. “As taxas de juros são inferiores àquelas praticadas na indústria bancária”, explica. Em 2025, segundo o Banco Central, os cooperados economizaram cerca de R$ 32 bilhões em crédito. Nos demais serviços, o padrão se repete: tarifas menores geraram R$ 4,7 bilhões em economia. A principal diferença, porém, está na distribuição. “Foram revertidos R$ 7,1 bilhões aos cooperados”, diz. Somam-se ainda R$ 5,8 bilhões em ganhos na remuneração de investimentos. No total, o benefício econômico chegou a R$ 49,7 bilhões em 2025. Mais do que um indicador, o dado aponta para a promessa central do modelo: gerar valor de forma mais distribuída. Esses números traduzem o diferencial do cooperativismo: distribuição de renda e benefício econômico que permanecem nos territórios, sem se concentrar nos grandes centros financeiros.

Produto como expressão de valor

Se o modelo cooperativista propõe uma lógica diferente, ela também precisa aparecer no desenho dos produtos. No Sicoob, isso começa na forma como o portfólio é concebido. “Produtos e serviços não são desenhados apenas para atender a uma lógica de mercado, mas para responder às necessidades reais dos cooperados e das comunidades”, afirma Ênio.

Isso altera o tipo de oferta e a lógica por trás dela. Menos imposição, mais adequação. Um dos exemplos citados pelo executivo está na operação de consórcios, uma das mais relevantes do sistema. Segundo ele, o Sicoob reúne “as menores taxas de administração, baixos índices de inadimplência e menos desistências que os principais concorrentes”.

O diferencial não está em criar produtos inéditos, mas em ajustar condições a partir de quem utiliza o sistema.

Sustentabilidade como operação

Se, no discurso, o cooperativismo se ancora em valores, é na operação que esses valores são testados. O Sicoob está presente em mais de 400 localidades sem outras instituições financeiras com agência. “Instalações que funcionam todos os dias, com oferta completa de serviços”, descreve Ênio.

Essa presença impacta positivamente a inclusão bancária. Em 2025, o número de cooperados das classes C, D e E cresceu 28,3%, chegando a 5,4 milhões. A inclusão bancária de populações historicamente desassistidas é um dos indicadores mais relevantes do impacto social do cooperativismo de crédito.

No mesmo período, ações de educação financeira alcançaram 2,4 milhões de pessoas.

A agenda também avança em finanças sustentáveis, com operações como a parceria de US$ 70 milhões com o BID Invest.

No campo social, o Instituto Sicoob beneficiou 4,6 milhões de pessoas e alcançou mais de 2 mil municípios – sendo a única instituição financeira em 351 deles. Essa presença territorial posiciona o Sicoob como referência em finanças com impacto social e cooperativismo de crédito sustentável.

Os dados ajudam a dimensionar a escala. Mas também levantam uma questão central para este Raio X: até que ponto essa presença se traduz, de fato, em transformação estrutural nas comunidades onde o sistema atua?

O impacto medido — e devolvido

Para responder a essa pergunta, o Sicoob estruturou um indicador próprio: o chamado Benefício Econômico Total do Cooperado. “Ele consolida o valor econômico apropriado diretamente pelos cooperados”, explica Ênio.

Esse indicador passou a integrar o planejamento estratégico da organização – o chamado Pacto Sistêmico – e hoje funciona como um dos principais instrumentos para acompanhar a eficiência do modelo cooperativista.

Em 2025, o Benefício Econômico Total atingiu R$ 49,7 bilhões, considerando uma base de mais de 6,7 milhões de cooperados ativos.

Mais do que o volume absoluto, o dado ganha relevância quando observado sob a ótica territorial. Ao contrário do sistema financeiro tradicional – onde os resultados tendem à concentração –, no modelo cooperativista esse valor permanece, em grande medida, nas regiões de origem.

Isso significa maior circulação de renda local, ampliação da capacidade de investimento de famílias e pequenos negócios e fortalecimento de cadeias produtivas regionais – especialmente em municípios de pequeno e médio porte. “Recursos que, em modelos tradicionais, tenderiam à concentração em centros financeiros permanecem nos territórios de origem”, explica o diretor.

O modelo também se conecta a agendas globais de desenvolvimento. Segundo o Sicoob, essa dinâmica contribui diretamente para objetivos como geração de trabalho e renda, redução de desigualdades e fortalecimento de comunidades mais resilientes, em linha com os ODS 8, 10 e 11.

Ainda assim, a pergunta persiste: como garantir que esse impacto seja consistente no longo prazo?


Onde o modelo é testado

O ponto mais sensível está no crédito. No Sicoob, essa escolha parte de um princípio claro: crescimento não pode vir à custa da fragilidade do cooperado. “A decisão de expandir o crédito considera não apenas a oportunidade comercial, mas também a capacidade de pagamento, o nível de endividamento e o impacto na estabilidade financeira do associado”, analisa Ênio.

A expansão do negócio, portanto, é condicionada a critérios de sustentabilidade financeira e aderência à realidade local – um equilíbrio que nem sempre é trivial em um setor orientado por volume e margem.

Essa lógica se torna ainda mais evidente em situações de conflito entre interesse econômico e impacto social. “Existem situações em que uma decisão economicamente atrativa pode não ser a melhor para a comunidade”, reconhece o executivo.

Nesses casos, o sistema adota critérios socioambientais mais restritivos. Setores considerados sensíveis passam por análises específicas e limites de concentração de crédito, e há vedações objetivas: o Sicoob não realiza operações com contrapartes envolvidas em atividades ilícitas ou associadas a crimes ambientais, trabalho escravo ou infantil, corrupção ou outras violações graves de direitos.

Escala versus proximidade

À medida que o sistema cresce, outra tensão se impõe: como manter proximidade em escala.

Os desafios aparecem em relações mais transacionais, operações complexas ou expansão acelerada. “A tensão entre interesses individuais e coletivos se intensifica”, diz Ênio.

O risco é o distanciamento. Para mitigar, o Sicoob aposta em uma estrutura descentralizada, com cooperativas locais mantendo o vínculo direto.

A equação é clara: crescer sem perder relação.

Por dentro: incentivos e liderança

Se o modelo cooperativista depende de decisões diferentes, ele também exige sistemas internos que sustentem essas escolhas.

No Sicoob, metas, avaliação de desempenho e remuneração são estruturadas para alinhar resultado financeiro e geração de valor para o cooperado. “A remuneração variável funciona como mecanismo de alinhamento entre desempenho individual, resultados organizacionais e impacto gerado”, explica Ênio.

Na prática, isso significa que indicadores financeiros convivem com critérios como qualidade do relacionamento, eficiência operacional e aderência às diretrizes institucionais.

Esse movimento ainda está em evolução. Em 2025, 42,2% das cooperativas já consideravam aspectos ambientais e sociais na avaliação da diretoria executiva – um indicativo de que a incorporação de critérios não financeiros começa a ganhar espaço, ainda que não de forma totalmente padronizada.

Nesse contexto, o papel da liderança se torna central. Mais do que executar metas, líderes são chamados a atuar como mediadores de tensão: entre crescimento e prudência, entre resultado e impacto, entre curto e longo prazo.

“Esses líderes se diferenciam por decisões orientadas por visão de longo prazo, prudência na gestão dos riscos e compromisso com a transparência e a participação do cooperado”, afirma.

Quando os valores custam

É em momentos de crise que esse modelo é mais pressionado – e, ao mesmo tempo, mais revelado.

Durante a pandemia de Covid-19 e em eventos climáticos extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, o Sicoob optou por flexibilizar prazos, renegociar dívidas e oferecer condições diferenciadas de crédito, mesmo com impacto no resultado de curto prazo.

“Essa atuação garantiu fôlego para que muitos cooperados pudessem reorganizar-se e manter suas atividades”, conta Ênio, destacando o impacto especialmente entre pequenos negócios.

Segundo ele, a decisão reflete uma lógica de longo prazo: “o fortalecimento do cooperado é também o fortalecimento da própria cooperativa”.

O limite do modelo

Apesar da consistência do discurso e dos mecanismos estruturados, o próprio Sicoob reconhece que há fronteiras ainda em construção.

Uma delas está no engajamento das novas gerações. “A construção de vínculo duradouro e de participação ativa ainda ocorre de forma mais gradual entre o público jovem”, afirma ele.

Os dados indicam essa tendência: em 2025, cooperados entre 18 e 30 anos representavam 20,1% da base, enquanto faixas etárias acima de 50 anos seguem em crescimento.

O desafio é ir além do acesso e construir pertencimento em um contexto de relações mais digitais, imediatas e menos relacionais – o que tensiona diretamente a lógica cooperativista, baseada em vínculo e participação.

Mas é justamente nessa tensão que o modelo revela sua relevância.

Ao longo de sua operação, o Sicoob constrói um sistema em que valores não aparecem como discurso paralelo, mas como parte da engrenagem do negócio: na forma como o crédito é concedido, como os resultados são distribuídos, como os produtos são desenhados e como a presença territorial é estruturada.

Os números ajudam a dimensionar esse modelo, mas não o explicam por completo. O que sustenta o Sicoob como uma organização distinta é a consistência entre intenção e prática: a capacidade de alinhar crescimento com prudência, escala com proximidade e resultado financeiro com geração de valor para o cooperado.

Ser uma marca que se importa, nesse contexto, não está em ações pontuais ou iniciativas isoladas, mas em um desenho institucional que redistribui valor, amplia acesso e incorpora limites claros para a atuação do negócio.

Ainda em construção e sob tensão, é essa coerência que posiciona o Sicoob para além de um agente financeiro, mas também como um modelo que questiona os padrões do próprio sistema em que está inserido.

Responsável: Naná Prado

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