Ricardo Voltolini: líderes que se importam

No Cidade do Futuro, uma provocação: o mundo já sabe o que precisa ser feito. O que falta são lideranças capazes de integrar pensar, sentir e agir. Confira o que foi destaque na master class sobre liderança sustentável, impacto positivo e os atributos humanos que o momento exige.

Quem está, de fato, se importando?

Em um mundo que gastou US$ 2,7 trilhões em guerras em 2024 – e não conseguiu mobilizar US$ 1,3 trilhão para adaptar os mais vulneráveis à crise climática – a pergunta deixa de ser retórica. Ela expõe o que já é estrutural.

Foi com essa provocação que Ricardo Voltolini conduziu sua master class no Cidade do Futuro, realizado no mês de abril, em São Paulo. O encontro vem se consolidando como espaço de articulação entre quem pensa, financia e implementa soluções para os desafios urbanos contemporâneos.

O ponto de partida do Ricardo foi a liderança.

Ao longo da apresentação, dados sobre clima, desigualdade e uso de recursos desenham um cenário já conhecido e, ao mesmo tempo, ainda não suficientemente enfrentado. A contradição é evidente: nunca tivemos tanto acesso à tecnologia, informação e capital. Ainda assim, seguimos tomando decisões aquém da urgência.

Para Voltolini, o problema já não está no diagnóstico, está na disposição para agir. Ou, mais especificamente, na ausência de lideranças que se importem, em todos os níveis, em gerar impacto positivo no mundo.  A liderança consciente e o desenvolvimento de lideranças com propósito são, cada vez mais, uma resposta concreta a esse vazio.

Liderar como um ato profundamente humano

Para Voltolini, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma agenda técnica e passa a ser, essencialmente, uma questão de liderança. Não no sentido clássico, de posição ou autoridade, mas como prática cotidiana de decisão.

“Liderar”, aqui, ganha outra definição: um ato profundamente humano de conduzir a si mesmo e aos outros em processos mais saudáveis, que criam significado e propósito para as pessoas e para o mundo.

O “importar-se”, portanto, não aparece como valor abstrato. Aparece como critério.

Inspirado por reflexões como as de Paul Polman, Voltolini define o importar-se como um primeiro movimento de empatia ativa: a capacidade de trazer para dentro de si a dor, a urgência e a esperança do outro, e agir a partir disso.

O oposto não é a ignorância. É a indiferença. E ela se manifesta de formas conhecidas no ambiente corporativo: apatia seletiva (“isso não é comigo”), inércia (“sempre fizemos assim”) e desresponsabilização (“alguém vai resolver”).

Esse conjunto sustenta o que ele chama de “neutralidade passiva”, talvez uma das formas mais sofisticadas de não agir.

Das competências àquilo que sustenta as escolhas

Antes mesmo de conhecer os Inner Development Goals (IDGs)[1] , Voltolini já vinha organizando sua visão sobre liderança em quatro competências atitudinais: cuidado, inclusão, ética/transparência e visão ecocêntrica.

Na prática, são quatro formas de estar no mundo e de tomar decisão:

  • Cuidadores: lideranças que exercem empatia ativa, escuta e senso de justiça
  • Inclusivos: que reconhecem a potência da diversidade e operam de forma colaborativa
  • Éticos e transparentes: que constroem confiança e não dissociam discurso e prática
  • Ecocêntricos: que ampliam o olhar para além do humano, incorporando interdependência e visão sistêmica


O encontro com os IDGs aprofunda essa estrutura. A iniciativa organiza o desenvolvimento humano em cinco dimensões interdependentes – ser, pensar, relacionar-se, colaborar e agir – e reforça uma ideia central: não há transformação sistêmica sem transformação interna.

Dito de outra forma, não faltam ferramentas. Faltam capacidades humanas ainda pouco desenvolvidas no ambiente de negócios, como consciência, pensamento de longo prazo, empatia e leitura de interdependências.

Quando valores encontram a prática

A master class foi conduzida para além do campo conceitual. Ao trazer exemplos de lideranças e organizações – como a Veja, a Natura, a Renner e a Nude, além de iniciativas como a Gerando Falcões e a Perifa Sustentável  – Voltolini desloca a conversa para o território mais difícil: o da coerência. Organizações como VEJA e Natura são exemplos de como a liderança com propósito e a sustentabilidade corporativa atravessam decisões reais, com dilemas e consistência.

São diferentes formas de colocar valores em prática no dia a dia do negócio — o que envolve dilemas reais, concessões e decisões que nem sempre são simples ou consensuais.

Esse mesmo movimento apareceu na outra participação de Voltolini no evento, mediando uma conversa com lideranças da Veja e da Motiva.

Ali, a discussão sai do plano das ideias e entra na operação: cadeia produtiva, estratégia, modelo de crescimento.

O ponto em comum? Valores só existem de verdade quando atravessam decisões.

Como começar a se importar

Se há um fio condutor na abordagem de Voltolini, ele passa pela integração entre pensar, sentir e fazer.

Tudo isso se traduz em alguns movimentos fundamentais: reconectar-se consigo mesmo, cultivando presença, consciência e propósito; ampliar a forma de pensar, incorporando visão sistêmica e de longo prazo; aprofundar a relação com o outro e com a natureza, exercitando empatia e interdependência; fortalecer a capacidade de colaborar e construir confiança; agir, com coragem, consistência e disposição para desafiar padrões.

O que o Cidade do Futuro evidencia é que a conversa sobre sustentabilidade amadureceu e também ficou mais exigente.

Não basta mais saber, declarar e parecer. A diferença, agora, está em quem sustenta escolhas, especialmente quando elas custam. É nesse espaço que a liderança sustentável, o importar-se ativo e o desenvolvimento humano nas organizações se tornam critérios concretos — e não apenas intenções declaradas.

É nesse espaço, menos confortável e mais humano, que o “importar-se” deixa de ser discurso e passa a ser prática. E onde liderar volta a ser, antes de tudo, uma decisão.

Responsável: Naná Prado


https://innerdevelopmentgoals.org/

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