A fala de Rafael Gibini durante o encontro do Movimento Marcas que se importam, em outubro de 2025, me levou a uma pergunta que eu nunca tinha parado para pensar com calma: o que significa, hoje, liderar uma empresa com mais de 100 anos?
No caso da Melhoramentos, fundada em 1890, essa pergunta ganha contornos ainda mais interessantes. Ao longo de sua trajetória, a empresa atravessou diferentes ciclos econômicos e consolidou sua atuação em frentes como o setor editorial, a produção de fibras de base florestal e, mais recentemente, o desenvolvimento de biomateriais a partir de fontes renováveis.

Existe, sem dúvida, uma estrutura construída, uma marca reconhecida e uma história que a sustenta. Mas há também o outro lado, menos visível e talvez mais desafiador: o peso dos padrões já estabelecidos, dos “jeitos de ser” que se cristalizam ao longo do tempo, e a necessidade constante de se reinventar em um mercado em transformação.
Mais do que preservar uma trajetória, liderar uma empresa centenária parece exigir uma capacidade contínua de escolha. E isso aparece de forma muito clara na fala de Gibini: escolher o que permanece, o que se transforma e, principalmente, o que deixa de fazer sentido.
Essa palavra “escolha” ganhou contornos mais claros para mim por volta de 2008, quando trabalhei com escolhas de consumo no Instituto Akatu. É um conceito simples na forma, mas profundamente complexo na prática.
No caso da Melhoramentos, ele se materializa no reposicionamento do negócio. A empresa vem, ao longo dos últimos anos, deslocando seu olhar de uma lógica tradicional de uso de recursos naturais para uma abordagem mais alinhada à regeneração, com investimento em florestas plantadas com manejo responsável, certificações, inovação em materiais de base renovável e na ampliação de soluções que dialogam com uma economia de baixo carbono. Essa transição para uma economia de baixo carbono, com manejo florestal responsável e materiais renováveis, é o que torna a Melhoramentos um caso de referência em sustentabilidade corporativa e estratégia de longo prazo.
Não se trata de um movimento pontual, mas de uma estratégia que busca alinhar negócio, impacto e longevidade.
Outro ponto que me chamou atenção na fala de Gibini é que essas escolhas não se restringem ao campo corporativo. Elas se conectam diretamente com o consumo — e, portanto, com o consumidor.

Se empresas escolhem o que produzir, como produzir e quais impactos assumir, nós escolhemos o que consumir, o que valorizar e, em última instância, quais modelos ajudamos a sustentar.
Essa perspectiva ajuda a deslocar o consumo do lugar da neutralidade. Consumir deixa de ser apenas um ato individual e passa a ser entendido como uma forma de participação, silenciosa, mas estruturante.
Claro que isso adiciona uma camada importante de complexidade. Falar em consumo consciente não é apenas uma questão de intenção. Envolve acesso à informação, repertório, contexto socioeconômico. Envolve, sobretudo, educação.
E talvez seja justamente aí que a cultura ganhe centralidade.
Quando Gibini fala sobre integrar a sustentabilidade à cultura da empresa, não está se referindo apenas à coerência interna. Está falando da capacidade de sustentar decisões ao longo do tempo, inclusive aquelas mais difíceis, menos óbvias ou que não geram retorno imediato.
Liderar, nesse contexto, passa menos por anunciar compromissos e mais por sustentar escolhas. E isso exige consistência, visão de longo prazo e, muitas vezes, disposição para questionar modelos estabelecidos.
No contexto do evento, essa foi, para mim, uma das contribuições mais relevantes da sua fala: ampliar o entendimento de sustentabilidade como resultado de decisões consistentes, e não como um conjunto de iniciativas isoladas. Sustentabilidade corporativa, cultura organizacional e visão de longo prazo são indissociáveis quando o objetivo é construir algo que dure.

O que vem depois dessa constatação não é exatamente uma conclusão, mas um deslocamento de olhar. Para as empresas, para o consumo, para a cultura e para a forma como tudo isso se conecta.
Talvez seja nesse espaço, menos óbvio e mais relacional, que a sustentabilidade deixa de ser discurso e começa, de fato, a ganhar forma. É aí que consumo consciente, gestão responsável e liderança com propósito se encontram — e onde as escolhas das empresas e dos consumidores constroem, juntas, outros futuros possíveis.
Escolher o que permanece, o que muda e o que deixa de fazer sentido talvez seja o maior desafio de uma empresa centenária.





